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Tales of Cities: cotidiano, gastronomia e tradições culturais em Chaoshan

12.02.2026 08h38 

Ao amanhecer na região de Chaoshan, no sul da província de Guangdong, o mar ainda guarda um vestígio do brilho noturno, enquanto, no horizonte, uma fileira de garças-brancas percorre o céu. Barcos de pesca deslizam silenciosamente de volta à costa, e a captura do dia se espalha pelos cais, com escamas prateadas reluzindo à luz suave da manhã. Pessoas se inclinam para separar os frutos do mar, com mãos ágeis e experientes. Na brisa salgada do oceano, vozes de grupos de idosos se elevam em canto. Entre risos, eles chamam os transeuntes: “Venha, cante com a gente!”.

Ao entrar nas ruas e vielas, é comum ver altares de incenso dentro das lojas. As pessoas juntam as mãos, fazem uma breve reverência e, em seguida, mergulham diretamente no ritmo do trabalho. Panelas de arroz enrolado no vapor são levantadas, liberando nuvens brancas enquanto a massa de arroz chia sobre chapas de ferro aquecidas. Comensais seguram tigelas fumegantes, parados à beira da rua, e suspiram com prazer genuíno: “Está delicioso!”.

Para os habitantes de Chaoshan, o dia costuma começar com o café da manhã. Tigelas quentes de guo zhi, uma sopa de macarrão de arroz típica da região, borbulham no vapor, enquanto conchas de sopa de sangue de porco aquecem o estômago dos madrugadores. Bolinhos de rabanete, pães recheados com carne de porco assada, bolos de arroz em formato de pêssego vermelho e inúmeros outros petiscos tomam conta das ruas, formando uma paisagem matinal própria. Aqui, o café da manhã não serve apenas para matar a fome; é um ritual cotidiano que marca o início do compasso da vida.

“As pessoas saem todas as manhãs para exercitar e depois procuram um lugar para o chá da manhã e o café da manhã. Com o tempo, isso vira um hábito”, conta Zheng Yaoping, cozinheiro de uma casa especializada em café da manhã. Entre seus clientes estão jovens que comem apressadamente antes de correr para o trabalho e vizinhos antigos que, após as compras, se sentam sem pressa para saborear um prato de macarrão de arroz. O rápido e o lento coexistem aqui em harmonia natural.

Essa cultura do café da manhã está enraizada na busca incessante da culinária de Chaoshan pela frescura dos ingredientes e pelo preparo na hora. Compras frequentes e produção no próprio dia transformam as barracas matinais em pontos de recarga de energia e de convivência comunitária, sustentando silenciosamente o ritmo diário mais básico e constante da cidade.

Chen Zhiyi, responsável pelo Restaurante Chaofang Yingge Banquet, prepara pratos da culinária de Chaoshan em Shantou, província de Guangdong, sul da China. (Liu Ning/Diário do Povo Online)

Ao entrar na cozinha, revela-se, em meio às chamas que se erguem, a coordenação precisa entre ingredientes, fogo e temperos, executada de forma metódica. A culinária de Chaoshan é conhecida por sua elegância leve e fresca, que valoriza o sabor natural dos ingredientes, com temperos contidos e técnica minuciosa. Seja no hot pot de carne bovina, nas sopas de peixe ou nos pratos preparados em panela de barro, tudo se baseia em padrões rigorosos de frescura e no controle cuidadoso do fogo.

“A principal característica da culinária de Chaoshan é que os ingredientes precisam ser frescos, leves, mas profundamente saborosos. Mesmo quando um prato já está bom, sempre pensamos em como torná-lo ainda melhor”, afirma Chen Zhiyi, responsável pelo Restaurante Chaofang Yingge Banquet. Leve não significa sem graça; é o resultado de experiência acumulada, paciência e discernimento. Dia após dia, sabores e temperaturas são ajustados para que cada ingrediente alcance seu melhor desempenho.

Quando a noite cai, os restaurantes se iluminam, e o som de tigelas e pratos se mistura a risadas e conversas. Prato após prato chega à mesa, trazendo não apenas sabores frescos e deliciosos, mas também a confiança e o calor humano que circulam entre as pessoas.

Então, os tambores começam a rufar, e a dança Yingge — conhecida como a “dança ao canto do herói” — entra em cena. Passos vigorosos e ritmos precisos revelam a vitalidade duradoura dessa antiga tradição popular. Popular em toda a região de Chaoshan, a dança Yingge combina elementos de dança, ópera e artes marciais. Em 2006, foi incluída na lista do Patrimônio Cultural Imaterial Nacional da China. Geralmente apresentada durante festivais e ocasiões rituais, simboliza celebração e bons augúrios, sendo parte essencial da cultura popular local.

Para Chen Weihao, integrante do Grupo Juvenil de Yingge de Shantou, a Yingge é mais do que uma apresentação: ela encarna o espírito de união do povo de Chaoshan. Unidos por um objetivo comum, os dançarinos se movem como um só ao som dos tambores. O que emerge é o modo de vida de Chaoshan, que valoriza confiança, integridade e o cuidado mútuo.

Integrantes do Grupo de Dança Yingge de Fucheng treinam em Chaozhou, província de Guangdong, sul da China. (Liu Ning/Diário do Povo Online)

Nos últimos anos, mais mulheres passaram a integrar os grupos de Yingge, trazendo camadas mais ricas de expressão à tradição. Sua perseverança abre novas possibilidades para a dança e torna seu futuro mais inclusivo e abrangente.

Quando a apresentação começa, os ritmos arrebatadores e os movimentos sincronizados capturam imediatamente o público. Não se trata apenas de uma dança, mas de uma memória coletiva e de um símbolo espiritual por meio do qual o povo de Chaoshan “expressa sua determinação em movimento”.

Nesta terra costeira, um espírito aberto e voltado para o mar se entrelaça a uma vida enraizada na tradição e na prática constante. Dos pratos caseiros ainda fumegantes aos ecos retumbantes das apresentações de Yingge, Chaoshan integra a tradição ao cotidiano, apresentando ao mundo tanto as raízes profundas quanto a vitalidade contemporânea da cultura chinesa.

A maré nunca descansa, e a vida cotidiana se renova sem cessar. A história de Chaoshan segue em frente, impulsionada pela perseverança diária e por um amor duradouro.