Yu Yang, Mauro Marques

Em meio às comemorações pelos 40 anos de irmandade entre Beijing e o Rio de Janeiro, a música tem se consolidado como uma poderosa ponte cultural entre os dois países. Um dos destaques dessa aproximação foi o concerto juvenil sino-brasileiro realizado na Universidade Renmin da China, reunindo jovens músicos brasileiros e chineses em um espetáculo marcado pela diversidade artística e cultural.
Márcia Melchior, diretora geral e artística da Orquestra do Forte de Copacabana, que atuou no evento, concedeu uma entrevista ao Diário do Povo Online. Durante a conversa, ela destacou não apenas o significado artístico da viagem, mas também o impacto social e cultural do projeto que lidera.
Originalmente um pequeno grupo à base de violões, formado por jovens das imediações do Forte de Copacabana, a orquestra cresceu e passou a atrair participantes de toda a cidade. “Começaram a vir meninos do Rio de Janeiro inteiro, do subúrbio, da periferia, de tudo quanto é lugar”, conta Márcia.
Hoje, alguns alunos enfrentam longas jornadas para participar dos ensaios: “Tenho meninos que levam três horas para chegar para ensaiar”, afirma.

Com o aumento da procura, o grupo expandiu sua formação instrumental. “A gente começou a inserir sax, clarineta, flauta, percussão, bateria, e aos poucos a gente fez uma big band”, explica.
Manter um projeto social no Brasil, no entanto, não é tarefa simples, confessa a entrevistada. Márcia relata dificuldades recorrentes com financiamento: “Muda-se o diretor de uma empresa patrocinadora e o apoio acaba”. Durante a pandemia, a situação se agravou. “Fiquei sem patrocínio, desesperada. Estávamos prestes a fechar o projeto”, recorda.
Foi nesse momento que surgiu o apoio da empresa chinesa CNOOC Petróleo Brasil, que passou a assegurar o financiamento e, ao mesmo tempo, abriu portas para uma aproximação cultural mais intensa com a China.
A partir dessa parceria, a orquestra começou a incorporar elementos da cultura chinesa ao seu repertório. “Sugeri que uma menina da orquestra começasse a cantar em mandarim, e começou assim”, relembra Márcia. Hoje, o grupo conta com um repertório sino-brasileiro diversificado, que inclui clássicos como Tico-Tico no Fubá e a tradicional canção chinesa Flor de Jasmim.
O intercâmbio se intensificou com apresentações oficiais, culminando com espetáculos realizados durante as celebrações dos 50 anos das relações diplomáticas entre Brasil e China, em Beijing, em 2024.
A instituição passou também a promover eventos culturais no Brasil, como a Festa da Primavera, celebrando tradições chinesas com música, dança do dragão, leão, kung fu e até demonstrações de medicina tradicional.
“A comunidade chinesa [no Brasil] começou a ir aos eventos, a gente foi aumentando o repertório e agora temos um repertório enorme”, afirma.

Para os jovens músicos brasileiros, viagens à China têm sido uma experiência única, sendo que, para a maioria, foi a primeira oportunidade de sair do país. “Foi incrível para todos nós. Estão deslumbrados”, afirma Márcia. Apesar do ritmo intenso desta turnê — são 12 apresentações em 15 dias —, o sentimento predominante é de entusiasmo.
A recepção do público chinês também surpreendeu. “Eles são muito carinhosos. Eu achava que eram mais calmos, mas não são”, disse, entre risos, destacando a energia do público local.
O concerto na Universidade Renmin reuniu diferentes expressões artísticas, incluindo música tradicional chinesa, Ópera de Beijing e performances conjuntas entre brasileiros e chineses.
O mesmo entusiasmo voltou a se verificar, com aplausos contínuos e uma forte interação entre a plateia e os músicos, havendo até espaço para uma performance conjunta com “robôs músicos”, uma tendência que tem se tornado comum no panorama de espetáculos chinês.
A complexidade logística da China, porém, surpreendeu a diretora. “Não estamos acostumados com isso no Brasil. É tudo muito rápido, entra grupo, sai grupo, monta tudo de novo”, confessa. "Por vezes as coisas não saem do jeito que a gente quer, mas todo o mundo gosta, todo o mundo curte", refere.
Apesar dos desafios, Márcia destaca a facilidade de integração artística. Em apresentações no Rio, a orquestra já colaborou com uma soprano chinesa, experiência que teve grande adesão do público. Para o futuro, há planos ainda mais ambiciosos: “Queremos colocar instrumentos chineses na nossa orquestra”.
Encantada com a China, Márcia enfatiza que a experiência vai além de qualquer descrição. “Não adianta falar, tem que vir para conhecer. É muito grande, muito diferente de qualquer outro país”.
Apesar dessas diferenças, conclui, a música desempenha um papel fundamental de aproximação: “A música é universal. Você pode não entender a língua, mas sente no coração”.
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