
A decisão do Brasil de conceder entrada sem visto por curtos períodos a cidadãos chineses deve fazer mais do que estimular a demanda turística. Analistas afirmam que a medida reduz as barreiras para viagens a negócios e ajudará a aprofundar os laços comerciais e de investimento entre as duas principais economias em desenvolvimento.
O governo brasileiro anunciou na quinta-feira (7) que portadores de passaportes chineses comuns poderão entrar no país sem visto para estadias de até 30 dias a partir de segunda-feira (11). A política permanecerá em vigor até 31 de dezembro.
Após o anúncio, plataformas de viagens online chinesas relataram um aumento imediato no interesse pelo Brasil. Dados mostram que as buscas por destinos relacionados ao Brasil aumentaram acentuadamente em poucas horas, com cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador entre as mais buscadas por viajantes chineses.
"O Brasil se tornou um dos destinos de longa distância que mais crescem entre os viajantes chineses nos últimos anos", disse Yang Han, pesquisador do instituto de pesquisa de big data da plataforma de viagens chinesa Qunar.
Durante o feriado do Dia do Trabalho, que terminou recentemente, o Brasil figurou entre os 10 principais destinos de viagem para turistas chineses, com um aumento de 95% nas reservas de voos da China para o Brasil em comparação com o ano anterior, afirmou Yang.
Agências de viagens esperam que a isenção de visto impulsione ainda mais a demanda, principalmente durante a próxima temporada de viagens de verão e o período de feriados do Festival do Meio Outono e do Dia Nacional, ainda este ano.
"O Brasil é o destino mais singular da América do Sul para turistas chineses, e suas atrações culturais, como o futebol e o Carnaval, há muito atraem os visitantes chineses", disse Xu Ning, gerente-geral da divisão Austrália, Américas e África da agência de viagens UTour, com sede em Beijing.
O Brasil costuma servir como porta de entrada para a região e a facilidade de entrada pode também incentivar viagens por vários países da América do Sul, incluindo roteiros que abrangem países como Argentina, Chile e Peru, observou Xu.
Além do turismo, analistas afirmam que a isenção de visto pode reduzir os atritos nas trocas comerciais entre a China e o Brasil, onde as visitas presenciais continuam sendo importantes para negociações, inspeções de locais e discussões sobre investimentos.
"A isenção de visto facilitará todo o processo comercial, desde a pesquisa de mercado e negociações até inspeções de fábricas e mobilidade de pessoal após o investimento", disse Zhou Mi, pesquisador sênior da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, em entrevista anterior ao China Daily.
A política surge num momento em que os laços econômicos entre os dois países continuam se fortalecendo. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil mostram que o volume do comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025, um aumento anual de 8,2%. Os números consolidam a posição da China como o maior parceiro comercial do Brasil pelo 17º ano consecutivo.
Empresas brasileiras também veem a política como um passo prático para uma interação comercial mais fluida.
"Empresas locais, especialmente nos setores de turismo, comércio, serviços e imobiliário, veem a mudança na política como positiva, pois reduz barreiras administrativas e facilita viagens de curta duração da China", disse Gabriela Lima, sócia da área trabalhista do escritório de advocacia brasileiro TozziniFreire.
As empresas que dependem da mobilidade internacional veem a medida como uma forma de viabilizar visitas exploratórias, negociações e o contato com clientes, afirmou ela.
Lima acrescentou que a facilidade de viagens pode aumentar a frequência de visitas a instalações e discussões sobre investimentos em estágio inicial, ajudando as empresas a avançarem com projetos mais rapidamente.
Analistas afirmam que os setores em que China e Brasil possuem fortes complementaridades econômicas podem se beneficiar mais com a facilidade de viagens.
A China tem vantagens na manufatura, fornecimento de equipamentos e construção de infraestrutura, enquanto o Brasil é uma potência global em exportações agrícolas, como soja, carne bovina e minério de ferro.
À medida que as empresas buscam novas parcerias, setores como infraestrutura, energia, agronegócio e tecnologia podem presenciar um engajamento mais dinâmico, avaliou Lima.
Além do comércio de bens, analistas afirmam que a maior mobilidade também pode impulsionar o crescimento da cooperação no setor de serviços, como finanças e educação, áreas em que as trocas bilaterais ainda são relativamente limitadas.
Apesar do esperado aumento nas trocas comerciais, analistas alertam que a facilitação de vistos por si só não eliminará as barreiras estruturais mais profundas que afetam o comércio bilateral.
De acordo com a política, a entrada sem visto é limitada a estadias de até 30 dias e não permite atividades de trabalho.
"Na prática, é provável que os setores mais regulamentados permaneçam atentos aos limites da medida, particularmente à restrição às atividades de trabalho com visto de visitante", disse Lima.
A natureza temporária da política também pode limitar o planejamento de longo prazo de algumas empresas, exigindo que elas monitorem se o acordo será prorrogado para além do final de 2026.
"A facilitação de vistos não é uma solução mágica", disse Zhou. "Mas constitui um sinal claro, e um passo importante, rumo a uma cooperação bilateral mais sólida."
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